A CORTIÇA

Portugal deu novos mundos, mas não foi ele que descobriu as virtualidades da cortiça e as vantagens da sua utilização.
A posição de Portugal, neste sector mundial, apresentando 30% da área do sobreiro, contribui com mais de 50% para a produção de cortiças e detém em suas mãos mais de 65% da indústria corticeira.
Dá se o nome de cotiça ao parêquima suberoso ou casca do sobreiro, que é uma árvore fagácea da região do Mediterrâneo Ocidental.
A Grécia antiga empregou a casca do sobreiro para fazer bóias utilizadas nas redes de pesca, sandálias e vedantes nas vasilhas de vinho e de azeite. O filósofo grego Tefrasto (século IV-III a. C.) descobriu que, uma vez retirada a cortiça do sobreiro, esta voltava a desenvolver-se repidamente e em melhor qualidade.

Os Romanos alargaram o leque da utilização da cortiça. O erudito Marco Terêncio Varrão (166-27 a. C.) e o técnico agrícola Lúcio Columela (século I) recomendaram o uso do cortiço para os enxames de abelhas devido à sua matéria-prima ser má condutora de calor. Gaio Plínio, o Velho (cerca 23-79), que alude à cobertura das habitções com pranchas de coritças - prática esta ainda hoje conservada em áreas do Norte de África -, enumerou a utilização da casca do cobreiro nos cabos das âncoras, nas redes de pesca, como vedantes das vasilhas, e no fabrico de calçado de mulher próprio para o Inverno. Os pescadores usavam ainda este produto como coletes de salvação.
O grande passo em frente para o aproveitamento generalizado da cortiça deu-o, pelo ano de 1680, o beneditino francês Dom Pierre Pérignon (1639-1715), procurador da abadia de Hautivillers, perto de Épernay (Champagne), a quem se deve o processo de champanhização. Verificou ele que com frequência saltavam dos recipientes com espumante os tampões de madeira envoltos em cânhamo embedido de azeite. Trocou as cavilhas por rolhas de cortiças como indispensável para o engarrafamento dos vinhos. E assim o vieram a adoptar empresas vinícolas como Ruinart de Reims, em 1729, e a Moët et Chandon, em 1743.

A primeira cortiça para rolhas usada em França tudo indica ser proveniente das Landes, Var e Pirenéus Orientais. A procura de matéria-prima e a expansão do comércio vinícola por ela assegurada em qualidade, não tardaram em reflexos na vizinha Catalunha. E assim, cerca de 1750, na provoação de Angullane, província de Gerona, junto à fronteira francesa, surgiu a primeira instalação fabril de fabrico de rolhas, o que marca o início da industrialização da cortiça, que viria a ter enorme desenvolvimento a partir do século XIX, quando a conservação dos vinhos passou a ser feita em garrafas, em vez dos tradicionais barris em uso desde o temo dos Romanos.

Fonte de estudo: A CORTIÇA de Manuel Alves de Oliveira - Leonel de Oliveira.